Não nasci numa família especialmente viajante. Quando estava crescendo, não passei férias mirabolantes em destinos variados, nem fui acostumada a carregar meu bichinho de pelúcia no avião. Mas logo cedo contraí o vírus nômade-aventureiro e até hoje ele tem atuação bastante pronunciada no meu sistema nervoso central.
Não sei bem porque, sempre achei fascinante tudo que é diferente, exótico, em outro idioma, com outra cara, com outro alfabeto. Quanto mais esquisito, melhor.
Quando tinha 13 anos, cheguei a conclusão de que a coisa mais incrível que alguém podia fazer era intercâmbio e, quando minha mãe chegou em casa e contou que a idade mínima era 15, chorei muito, porque 2 anos aos 13 é uma eternidade que nunca vai passar.
Mas os 2 anos passaram e morei 1 ano nos EUA, depois 4 em Londres e nunca mais parei de viajar. Nem pretendo.
E se você está nesse site, é porque também gosta do esporte. Que bom!
Estou escrevendo justamente para defender essa nobre atividade.
Não tenho casa própria, não tenho carro chique, mas não abro mão de viajar pelo menos uma vez por ano. Por que? Porque é quando sou mais feliz. Porque quando viajo convivo com a melhor versão de mim mesma. Porque relembro de quem e do que realmente me importa nessa vida.
Aí você deve estar se perguntando: e precisa viajar pra tudo isso? Sim, precisa.
Mas por que?
Bom, Alain de Botton no livro “A Arte de Viajar“ , explora a ideia de que é no desconhecido que a gente encontra com a gente mesmo. Segundo ele, as pessoas viajam em busca da felicidade, em busca de descobrir como seria a vida fora das restrições do trabalho e da luta pela sobrevivência. E eu acredito muito nisso.
Na verdade, acho que o bônus desse processo todo de fazer as malas para um encontro consigo mesmo, é descobrir que existe “n” jeitos de fazer as coisas, de pensar, de comer, de viver e até de respirar. O que, com o tempo e a milhagem acumulados, vai deixando a pessoa mais flexível, mais resiliente, mais ser humano melhor. Assim, de repente, podemos brincar de fazer diferente temporariamente e até podemos adotar algumas coisas definitivamente depois. O passaporte vai sendo carimbado, e o mundo vai ficando estranhamente menor e maior ao mesmo, na mesma proporção.
Porque, basicamente, a rotina é inimiga do frescor e, na invariável máquina moedora do dia-a-dia, os olhos se turvam e a curiosidade vai ficando tímida e preguiçosa. Mas não pode. Adorno e Horkheimer em “Dialética do Esclarecimento” defendiam que o “símbolo da inteligência é a antena do caracol (…) Os animais mais evoluídos devem o que são à sua maior liberdade; sua existência mostra que, outrora, suas antenas foram dirigidas em novas direções e não foram retiradas. ( …) Cada olhar de curiosidade que o animal lança anuncia uma forma nova dos seres vivos que poderia surgir da espécie determinada a que pertence o ser individual.” E viajar é o maior alongador de antenas de que tenho notícia.
Viajar pro sítio do amigo numa cidade próxima também está valendo, o importante é o espírito do deslocamento.
A seguir, alguns motivos louváveis para viajar:
- ver exposições de arte que nunca chegam nessas bandas
- ver ao vivo e em cores obras primas de artistas renomados e decidir se eles tocam pessoalmente a alma da gente
- perder o medo de se localizar em ruas que você não sabe pronunciar
- ganhar uma cancha de se virar
- abrir os olhos, dilatar as pupilas, acionar as narinas, atiçar as papilas
- perceber que o plano B era melhor do que o plano A, até porque ele não se concretizou
E outros divertidos:
- os cosméticos do Free Shop são mega baratos
- tem H&M em todo lugar que se preze (e onde não tem, tem Gap)
- poder usar um chapéu por dia sem temer aquele olhar de essa-aí-pensa-que-tá-na-europa dos seus conterrâneos
- comprar vários mimos baratinhos, fazer poupança de presentes e depois arrasar nos aniversários dos amigos
- aprender a falar obrigada, por favor, bom dia e tchau no idioma local. Mesmo que seja chinês. Afinal, são só 4 palavras. Você vai se divertir e ganhar popularidade local. Nunca falha.
Sempre lembrando, como o personagem de William Hurt descobre em “O Turista Acidental” que: EM VIAGENS, COMO NA VIDA, MENOS É INVARIAVELMENTE MAIS.
P.S.: as fotos são de algumas das minhas andanças.




