Se você quiser conhecer melhor a associação entre a ética protestante e o espírito do capitalismo – sem virar grevista na USP -, sugiro duas opções não exclusivas: ler Max Weber ou visitar Genebra.
Genebra é uma cidade em que se sente Max Weber vivo, e bem acompanhado do Calvino. Ao chegar à cidade, não há nada melhor do que se dirigir à Cidade Velha, onde está localizada a Catedral. O ponto alto da cidade, literalmente. A Cidade Velha é o que Genebra tem de mais charmoso. Arquitetura, a aglomeração de casas edificadas com pedras, janelas altas e abundantes. Após andar pelo centro, recomendo sentar-se na La Clemence para um capuccino, chopp ou a cerveja Calvinus, dependendo da posição do sol e da preferência.
Para turismo rápido, um dia é suficiente. O Parque de Bastions, onde se encontra o monumento em homenagem aos Reformadores (Protestantes) e prédios da Universidade de Genebra, fica embaixo da Cidade Velha e em frente à Ópera. A próxima parada pode ser a Rue de La Confederation, que é a rua principal do comércio na cidade e que fica entupida aos sábados, já que domingo nada abre. A um bloco do centro comercial, está o Lago Léman, uma prova do zelo que os suiços têm por conservação ambiental. É sensacional, sobretudo no verão. Geralmente, depois das 5 da tarde, vale a pena parar no La Terrasse para um vinho regional e apreciar a vista do Jet d’Eau, Salève e Mont Blanc.
Em seguida, nada melhor do que ir andando pelo lago até o Parque La-Perle-du-Lac, onde se tem uma vista mais ampla da cidade e um florido jardim. Neste trajeto, passará pelo Palácio em que foi formada a Liga das Nações, sob a liderança do Presidente Wilson, dos Estados Unidos. Aproveitando a inspiração diplomática, é válido passar no Palácio das Nações, sede das Nações Unidas, e outros prédios construídos nos anos 60-70 do sistema ONU, como a OIT e OMS. Na volta, não deixe de pegar o trenzim e passar por Pâquis, a vizinhança onde concentram-se bons restaurantes, as profissionais do amor e traficantes, conforme descreve Paulo Coelho em algum de seus livros – que eu nunca li.
Honestamente, acho que não tem muito mais para ver. Agora, você reconhecerá o espírito protestante da cidade sobretudo nas pessoas, nos hábitos, no convívio. Para isso, é preciso muito mais do que um dia. Em uma cidade com 60% da população composta por estrangeiros, o espírito Calvinista domina a cena. Vou dar dicas de alguns experimentos que você pode fazer: vá a uma festa, algum restaurante ou faça alguma coisa não-muito-certa. Festa em Genebra é evento raro – pelo menos nos moldes que estamos acostumados. Se for comer em um restaurante, prepare-se para ser convidado a se retirar às 11 da noite e, por favor, não fale alto. As pessoas na Suíça têm o costume de comer em casa – até porque a conta sai salgada e o nível de poupança das famílias é relativamente muito mais alto do que no Brasil. Por fim, o controle social do suíço é ferrenho. Se cruzar a linha, qualquer pessoa que o pegou no ato liga para a polícia.
Não por acaso, o que mais me encanta em Genebra não é a cidade, mas o campo. São os vilarejos, os restaurantes rústicos onde quem serve são os mesmos que produzem a comida, a organização exemplar das coisas, a lavoura mecanizada e cuidada. Isso daria para conhecer em um segundo dia na cidade. É só pegar uma bicicleta (de graça) e aproveitar.
Se vier a Genebra no inverno, não se engane. A vida está nas montanhas. Uma estação de esqui bacana é Verbier – e onde as festas são bem melhores do que em Genebra. Na Suíça, um país que o salário mínimo é de 3.500 francos (7 mil reais), esqui é um esporte popular.
Weber não parece estar errado ao observar que o espírito da poupança, da reprodução do capital, do capitalismo proliferou bem onde havia protestantismo. Mas qualquer um pode perceber que não é só de dinheiro que o paraíso é feito – sobretudo quando uma parte razoável vem dos banqueiros de gestão de fortunas que-sabe-se-lá-de-onde-vieram. Mas ainda acho a lógica da produção e da multiplicação da riqueza mais atrativa do que a depredação de bens públicos em nome de uma causa vazia, como na escola em que aprendi sobre Max Weber.






