Cruzando Colômbia e Equador – Parte II – Por Sergio Gresse Jr.

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Equador em síntese: País pequeno e plural, do povo amigo e receptivo. Do Cotopaxi e do Chimborazo; Das Galápagos e de Montañita; Dos esportes radicais e das lagunas; Da Amazônia ao Pacífico; Do Tigrillo e do Yapingacho; Do futebol à sua maneira; Do camponês e de Ingapirca – Da metade do mundo!

Cruzei a fronteira cheio de planos e ainda curioso pelo que eu ia enfrentar. Sem reservas, sem passagens compradas, apenas com algumas – poucas – ideias do que eu queria ver.

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Viajar pelo Equador é fácil. O país é pequeno e tem uma surpreendente boa oferta de estradas e companhias de ônibus. O preço médio das viagens intermunicipais em todo território nacional é de US$ 1,00/hora. Simples! Não é necessário gastar com passagens aéreas ou aluguéis de carro, mesmo porque as estradas são bastante difíceis e cansativas. E sim, eu disse Dólar ao me referir aos preços – A moeda tradicional equatoriana, o Sucre, foi extinta no ano 1999. Desde então o governo equatoriano dolarizou sua economia, até por este motivo a diferença nos custos entre Colômbia e Equador é sensivelmente grande.

Cotacachi – Otavalo

Cheguei a Tulcán, primeira cidade efetivamente após a fronteira colombiana, e já fui em direção a Otavalo e Cotacachi. Escolhi Otavalo por ter a famosa “Feira de Artesanatos de Otavalo”, interessante mesmo aos que detestam lojas de souvenir e de ir às compras (Esse cara sou eu!). Vale a pena a visita rápida, principalmente pelos artesanatos campesinos e indígenas que eles oferecem. Após exata meia hora de visita e alguns poucos dólares gastos em regalitos, parti para Cotacachi.

Cotacachi fica ainda no Norte do país, província de Imbabura, mas já seguindo em direção à capital Quito. Tive duas experiências inesquecíveis por ali: A trilha ao redor da cratera do Vulcão Cuicocha, e minha primeira oportunidade na vida como Couchsurfer. Aos que não conhecem, CouchSurfing é uma comunidade de viajantes e pessoas que os recebem em suas casas sem cobrar nenhum centavo. Fui extremamente bem recebido pelo Marcelo em sua finca próxima ao centro, e minha estreia como Couch foi espetacular. Bom papo e boa comida, todas as refeições eram preparadas com vegetais e ingredientes plantados ou criados pelo próprio host. Todos os receios naturais que tinha sobre fazer CouchSurfing foram apagados por essa agradável oportunidade que pude ter.

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Estando em Cotacachi, chega-se até o início da trilha ao redor da cratera do vulcão Cotacachi, adormecido há centenas de anos. O percurso é longo, sinuoso, e as dificuldades na respiração pelos mais de 3.300 m de altitude e pela baixa temperatura são reais. Caminhei sozinho os mais de 18 km, maravilhado com a vista tanto da laguna pra dentro do vulcão sempre à direita, quanto da cidade de Cotacachi sempre à esquerda. Terminada a trilha, fui ao centro da cidade para dar uma volta e parti no dia seguinte à capital.

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Quito – Mitad del Mundo

Cheguei a Quito após longa viagem desde Cotacachi, indo direto ao bairro de Mariscal procurar hospedagem. Essa zona da cidade é bastante movimentada, muito segura e cheia de vida cultural. Rapidamente encontrei um bom lugar pra ficar por lá.

Quito me surpreendeu de maneira muito positiva, provavelmente por chegar esperando pouco dela. Antes de ir, ouvi muito que não valeria a pena passar uma noite por lá “por não ter nada”. Doce ilusão! É uma capital extremamente limpa, tem bom nível de segurança, e conta com um centro histórico muito bem preservado. A região central é patrimônio da Unesco e contemplada pela sua imponente Catedral. Possui inúmeras Igrejas de interiores espetaculares, alguns museus e praças, e é onde está situada a sede do atual governo Rafael Correa. A cidade ainda está na base do Parque Nacional de Cotopaxi, um dos vulcões mais importantes e ativos do país que inclusive estava prestes a explodir durante minha visita – Um toque de emoção nunca é demais. Por estar numa região de alta atividade sísmica e para a minha alegria, pude sentir um leve tremor durante um fim de tarde, o qual passou quase que despercebido pelos locais já mais acostumados. Para ter um belo visual de todo o vale, vale a pena subir ao mirante da cidade à bordo do teleférico-gôndola.

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A região é também famosa por ser cortada pela imaginária Linha do Equador, a qual divide o planeta entre hemisfério norte e sul. Fui visitar o “Mitad del Mundo” com dois colegas de Hostel, um brasileiro de BH (infelizmente o único que encontrei em todo o país) e um francês bastante abrasileirado, por sinal! Dentro do complexo está baseada a sede da Unasur (Unión de Naciones Suramericanas), e encontra-se uma torre que aponta os respectivos hemisférios com a linha imaginária pintada no chão. Além de entrar no planetário e nas exposições interativas sobre curiosidades do local, é possível fazer fotos bem legais e ter seu passaporte carimbado por ter estado lá!

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Baños – Puyo – Pastaza

De Quito segui a Baños de Água Santa, já mais ao Sul, pela promessa de esportes radicais e natureza que encontraria. E batata! É uma das cidades mais divertidas de todo o país. Baños é a Meca nacional do “com emoção” e muito próxima da divisa com o estado de Pastaza, já inicio da Amazônia Equatoriana. Estando em Baños é mandatório visitar: Casa del Arbol, do famoso balanço à beira do vulcão Tungurahua, o mais ativo do país; A trilha do Pailón del Diablo, uma queda d’água impressionante e com belos caminhos; e a Subida ao Mirante da cidade feita no período noturno. Nada disso demanda a presença de um guia ou ajuda de agências de turismo, apenas transporte público e caminhada são suficientes.

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De Baños é possível realizar um bate-volta a Puyo, primeira cidade importante do estado de Pastaza, já dentro da Amazônia Equatoriana. Lá, agora sim com a ajuda necessária de um guia, é possível andar pelos rios de canoa para visitar aldeias indígenas, fazer trilhas na mata para banhos de cachoeira, e ainda praticar Rafting e Cipó. Fiz tudo isso dividido em dois dias inteiros, um para a trilha e outro para os esportes. Durante o dia das trilhas tive a oportunidade de conversar com o pagé dos Waroanis, grupo indígena da região. Fomos muito bem recebidos pela tribo com danças, frutas e várias histórias!

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No dia dos esportes, fiz Rafting nos mais de 20 km de quedas d’água do Rio Pastaza e completei o dia na insanidade do cipó. Vale muito ficar pelo menos 3 noites na cidade!

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Cuenca – Cañar – Azogues

Saí do radicalismo de Baños para chegar à surpreendente Cuenca, disposto a ficar uma noite antes de partir ao meu destino final, Guayaquil. Gostei tanto que fiquei mais, principalmente por estar àquela altura com o cronograma em dia. A cidade tem ainda fortes traços da época da colonização espanhola muito bem preservados, estilo de vida muito calmo e se torna ainda mais bonita quando o sol baixa. Atrações turísticas em si são poucas, mas trata-se de uma cidade incrível para caminhar, visitar a galeria de arte e seus recitais, ir ao mercado central, e provar a excelente culinária equatoriana nos pequenos restaurantes do centro. Foi lá inclusive que comi meu prato favorito de toda a viagem, o Tigrillo – Uma espécie de omelete feita de banana-da-terra, cebola e queijo, servida com ovos e carne de porco. Um escândalo gastronômico, sem brincadeira. Depois de tanta trilha, água e caminhada, nada melhor do que Cuenca para descansar corpo e mente.

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Estando na cidade, resolvi também dar uma escapada até Cañar e Azogues, dois povoados a cerca de 1:30h da cidade e ainda dentro da província de Azuay, para visitar Ingapirca. São as maiores e mais importantes ruínas Incas do Equador, bem no meio das montanhas. Vale o esforço não só pela história e pelo sitio arqueológico bem preservado, mas também pelo caminho até lá. Somos obrigados a passar por pequenos povoados no meio da Cordilheira dos Andes e ver de perto a rotina dos camponeses andinos do país. Para quem já visitou Cusco ou ruínas mais famosas, talvez não impressione tanto. Eu particularmente gostei bastante!

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Guayaquil

Após vários dias no alto da cordilheira, iniciei minha descida desde os 2.600m de altitude de Cuenca até o nível do mar de Guayas, chegando ao clima úmido e extremamente quente de Guayaquil. O caminho é lento pela descida e duro aos ouvidos pela diferença de pressão, mas muito bonito quando já está próximo da cidade pelas plantações de Cacau à beira da estrada. Escolhi Guayaquil como destino final por belos motivos: É a maior cidade do Equador, tenho grandes amigos guayaquilenhos – não os via há mais de 10 anos – e um deles ia se casar!

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Passei 3 noites na cidade e, entre reencontros e festejos, fui turistar como manda o figurino. Vale uma tarde pelo Malecón, grande avenida para pedestres que beira o Rio Guayas que fica localizado no centro, e a subida regada a suor das escadas de Las Peñas para um visual da cidade vista de cima. Las Peñas é um dos bairros mais antigos e preservados de Guayaquil, com casas coloridas e muitas vielas super fotogênicas. A cidade passou por um grande incêndio durante 3 dias no ano de 1896, e o bairro foi um dos únicos que sobreviveram à tragédia.

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Após passar por cidades grandes e pequenos pueblos, dos 4.000m de altitude ao nível do mar, por desertos, florestas, parques nacionais, dois oceanos, e paradas em 38 distritos diferentes, terminava aí minha jornada por estes dois países incríveis. O calor e a receptividade de colombianos e equatorianos fizeram desta talvez a viagem mais divertida que tive o privilégio de fazer até hoje. Dificilmente volto a destinos pelos quais já viajei, certamente volto a Colômbia e Equador.

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